sábado, 21 de dezembro de 2013

Estrada de formiga

Ocultei a fascinação 
pela auto percepção 
da existência. 
Eu era fascinada, 
deslumbrada, 
seduzida por ela. 
Criança a cata de detalhes 
despercebidos pelo mundo maior, 
tão desinteressante. 
Eram descobertas grandiosas 
os vincos de uma pedra. 
Estrada de formiga. 
O mundo maior 
deu para gargalhar de mim 
criança. 
Levava-me a constatar 
que minhas preciosas descobertas 
eram antigas conhecidas e comuns 
pedras inertes, 
mortas, 
desconexas, 
soltas, 
pedras. 
Intimidador mundo maior.
Eles sabiam tanto mais sobre as pedras, 
as estradas 
e as formigas, 
que me senti envergonhada 
e tratei de aprender tudo quanto pude 
e quis 
sobre as pedras, 
as estradas 
e as formigas 
segundo o mundo maior. 
Lembro-me de uma sutil sensação 
de que tinham tudo planejado 
para algo ainda maior 
que o mundo maior. 
Envergonhei. 
Nas pedras, 
nas estradas 
e nas formigas 
eu deixei guardada, 
tão bem escondida, 
a fascinação 
pela auto percepção da existência.
Meu natural método para as minhas grandiosas descobertas era a contemplação. 
O mundo maior disse não. 
O mundo maior imperativo disse: apreenda. 
Envergonhei. 
Nas pedras, 
nas estradas 
e nas formigas 
eu deixei guardada, 
tão bem escondida, 
a contemplação.
O mundo maior cada vez mais frenético, 
intimida e impera: 
apreenda, apreenda, apreenda! 
Acho que frenética fiquei. 
Tanto que da sanidade nada saudável eu abdiquei. 
Procuro nas pedras, 
nas estradas 
e nas formigas 
a auto percepção da existência 
e a contemplação que deixei.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Silêncio e Incenso

Existe calma, o respirar calmo, mas não o sono.
Chove como se água sapateasse.
Tudo que se pode ouvir: a chuva e o respirar.
O sono, na água lá fora, não cansa de brincar.
Ela quer parar de pensar.
Dentro do silêncio do quarto,
aromas aconchegantes esperando o sono cansar,
ela sorri satisfeita mas cogita:
Por que ter hora pra acordar?
Silêncio e Incenso a envolvem no quarto.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Luciérnaga

Delicadeza deitou-se na grama 
aos pés da Grande Árvore 
que a acolheu com o cheiro fresco e úmido que emanava.

Sentiu o chamado e ali estava. 
Precisava receber a mensagem e estava ciente de que 
não seria através da linguagem usual, 
restritamente humana.

Não seria uma conversa, sabia. 
Interação, seria.

Aceitou o silêncio 
e a espera de fazer-se sensível. 
Conseguiu unir-se a Terra. 
Era terra. 
Respirava com a Terra.

Aconchegou-se dentro da terra, 
sentiu seu frescor. 
Começava a interagir com Quimera, 
da mesma forma com que um toque suave na pele 
pode tanto dizer a quem ama.

Era noite.

Delicadeza sentiu Quimera.
Delicadeza amava tanto Quimera!
Delicadeza sentiu Quimera triste.

Quimera emanava desejo de se transubstanciar para Delicadeza.
Quimera desejava ser palpável para Delicadeza.
Quimera amava Delicadeza.

quimera...

Delicadeza uniu-se a um vaga-lume 
e deixou nele amor.
Vaga-lumes concebem quimeras.

Vagou a luz, vaga-lume,
Levou o amor de Delicadeza
para Quimera.