quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Caminhos abertos à sua frente

Eu tinha o hábito de voltar atrás no caminho sempre que encontrava dificuldades. 

Ouvi de algum sabido desses que o mundo tem, bom nessas coisas do caminhar, que era bom queimar as pontes para não voltar, seguir em frente, rumo ao bem da gente.

Queimei a ponte, agradecida e feliz, que não voltaria naquele passado. Agradeci o passado. O passado no devido lugar, no passado, no caminhado, sem passagem para que eu voltasse lá. 

Olhei para trás e vi amados ainda lá. Coloquei tábuas, inúmeras vezes. Disse: vem! Não queriam vir. Antes de toda meia-noite passava pela tábua, conversava. Voltava. Retirava a tábua. Seguia um pouco mais. Olhava para trás. Colocava a tábua, convidava. Hoje não convido mais. 

Entendi que é meu caminho. Que tanto a ponte, quanto a tábua só existem no meu caminho. Meus amados estão livres para caminharem suas jornadas. 

Eu entendi que, não basta queimar a ponte, tinha que aprender que era a minha ponte, era o meu caminho, somente meu. 

Agora estou livre para seguir, sem doer no coração, sem colocar tábuas antes da meia-noite.  

Cada um na sua própria direção.

domingo, 13 de setembro de 2020

Carta aberta ao primeiro amor

Parei aqui para pensar que um dia você parou a sua vida para escrever uma carta de amor à mim. Você parou a sua vida para escrever uma carta de amor à mim. Você parou sua vida em algum lugar seu, olhou para dentro de si e me viu assim. Parou a sua vida para escrever uma carta de amor à mim. Agora a carta persiste guardada em meu relicário. Você parou a sua vida para escrever seu amor à mim. Agora você não existe mais no tempo que parou enquanto eu escrevo esta carta de amor à você. Eu parei o tempo para escrever esta carta de amor à você para dizer que foi uma honra que tenha parado para escrever uma carta de amor à mim, no curto tempo de vida que teve caminhando na terra, você parou a sua vida para escrever uma carta de amor à mim.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Reunião das Palavras

Reunião das Palavras

Reuniram-se todas as Palavras da Língua Portuguesa. Havia muito o que ser discutido. Era uma Reunião Extraordinária. Muitas Palavras estavam com questões metafísicas a serem respondidas. Urgia aquela reunião.

As Palavras trabalhavam nas narrativas humanas e eram utilizadas ao seus gostos e necessidades. Elas eram felizes na função. Gostavam muito de ajudar os seres humanos a se comunicarem, a se expressarem, entrarem em acordos e construírem a sociedade. As Palavras eram filhas da Língua Portuguesa, nesse caso. Língua Portuguesa, nascida de seres humanos. Coisas sombrias começaram a acontecer. Ela amava o nascimento de palavras, claro. Até fazia uma festa chamada "Neologismo". "Hoje tem Neologismo!" E todas corriam para receber o novo dizer. Porém, descobriram que haviam humanos matando Palavras. Enviando Palavras para um tal cemitério de Palavras. Eram Palavras que não mais poderiam ser ditas. Claro que não era a primeira vez que aquilo acontecia, mas as lembranças não eram nada boas.

Chegou, então, a mãe Língua Portuguesa pronta para ouvir e mediar toda a reunião. Empatia foi a primeira a pedir a voz:

- Estou exausta!
- Mas por que, minha filha?
- Porque antes a minha função era atender sentimentos genuínos. Agora tem sempre uma palavra do tipo Imperativo me forçando a trabalhar, sem parar, nas narrativas.

As palavras Imperativas estavam em voga, como em tempos de outrora. Estavam em marcha, com toda força que podiam.

- Mas quais palavras Imperativas, meu amor?
- Ah, Mãe! "Tenha" Empatia tem sido meu maior trabalho. Aparece toda hora me forçando a trabalhar.
- Evento, de fato, preocupante. Você, Empatia, é uma Palavra que serve ao Genuíno. Cadê o Genuíno?
- Estou aqui, Mãe.
- O que houve com você? Porque está todo coberto de poeira, com teias de aranha?
- É que não tenho tido muito trabalho. Ando assim, esquecido.
- Mas como é possível que você, Palavra que serve para atender os sentimentos mais nobres, sinceros, legítimos como as perguntas e respostas de uma criança, possa estar nesse estado?!
- As crianças ainda usam minha essência, mãe. Quanto a isso, nada mudou. São os adultos que tem me deixado de lado. Não perguntam com sentimentos da minha ossada. Agora usam mais sentimentos da ossada da Suposição.
- Suposição, minha filha! Acaso sua função não era somente atender os humanos em casos de ausência total de interlocutor?
- Ah, mãe! Os seres humanos não conversam mais, com raras excessões. Agora eu estou tão cansada quanto a Empatia. Eles supõem tanto! Por isso deixaram Genuíno de lado.
- Minhas filhas Palavras, vamos conseguir resolver tudo isso. Já o fizemos inúmeras vezes antes.
- Mas como, mãe? Estou exausta, não consigo nem raciocinar.
- Ora, meu amor. E não era essa a intenção dos seres humanos? Sabem bem como são meus pais. Os amo, mas são bem manipuladores! Fique tranquila, Empatia. Se anime, Genuíno. Descanse, Suposição.
- Mas, mãe!
- Acalmem-se. Eles são avós legais. Criaram as Regras da Língua Portuguesa para nos ajudar em nosso trabalho. Vou a elas recorrer.
- Ih, mãe! Se a Senhora soubesse...
- Soubesse o quê, Genuíno?
- Ontem teve festa Neologismo. Nasceu outra Palavra, toda moderna.
- Qual Palavra? Tenho tido tanto trabalho que nem participei dessa festa! Que tom de voz estranho, Genuíno! A gente sempre fica tão feliz com o nascimento de uma Palavra!
- Foi a Palavra Despiorou.
- Chamem as Regras! Isso não é Palavra nova! Inadequado, filhas! Caso aceitemos caladas, a palavra Melhora poderá cair nas mãos do Coveiro das Palavras!
- Coveiro das Palavras, mãe? Palavras morrem, eu sei. Mas podem ser assassinadas? Perguntou Genuíno.
- Ah, filhx Genuinx, estou sofrendo tanto. Outro dia disseram que sou fruto dos horres da Colonização. Estou fazendo análise. Não sei.
- Mãe? Que xises são esses?
- Não sei, meus pais estão tentando se resolver. Deve ser isso.
- Mas não bastaria que eles viessem a mim? Eu que deveria atender todos os sentimentos genuínos.
- Pois é, pois é... Bastaria. Agora percebo. Bastaria. Mas te deixam de lado, usam demais dos serviços da Suposição e forçam a Empatia a trabalhar. O trabalho da Empatia seria por uma fração de segundos. Ela é Empata. Sofreria muito caso muito usada. Ela precisa agir rápido e sair de cena. Logo entraria a Solidariedade, agindo! Mas também deixaram a Solidariedade de lado. Mas eu falava dos Coveiros das Palavras. Tem os parteiros e os coveiros. Genuíno, me ajude. Tire esse pó do corpo, venha.
- Mãe, a Senhora acha que estão enterrando e criando Palavras de propósito? Seria por tanta Suposição?
- Suposição, venha aqui, querida. Como tem sido?
- Eu não posso ficar agora. Estou ocupadíssima! Nesse exato momento tem um leitor supondo muitas coisas, mãe!

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Pragmático Sol

Primeiro ascendeu Marte. Eu olhava com ansiedade infantil. Ascendeu a Lua, banhada pela sombra da Terra. A sombra de tudo estava ali. De tudo que chamamos de realidade: as guerras, a política, as ideologias, os caminhos, toda a sombra dessa realidade restrita, ali se delineando na sombra da ilusória pequenez da Lua, através da existência absoluta do Sol manifestada. Voltei a bordar a vida. Estava em dúvida entre acabar de bordar a estrada ou bordar o céu. Eu sorri, porque já tinha tido essa dúvida antes. Então eu decidi acabar de bordar o caminho.

sábado, 18 de julho de 2020

Meia dobrada

Estava dobrando as meias quando o ato disparou uma gatilho em minha memória. Parei. Parei com a meia dobrada no colo e voltei no tempo. 
Vi a gaveta de meias de meu primeiro namorado e como aquilo era novo para mim. Meias dobradas... Minhas meias não tinham pares, gostavam de escapar pela corrente da mina onde mamãe as lavava. Ficava um pé e o outro, sabe Deus... As que não escapavam, perdiam-se de seus pares na rouparia. 
Olhando aquela gaveta de meias dobradas eu vi um mundo novo, onde as meias não escapavam e tinham pares. No aconchego daquela família, aprendi a manter os pares juntos e a dobrar meias. 
Chorei porque senti luto e gratidão por aquele que me mostrou que meias tem pares. 
Sorri porque ainda uso pé de um, pé de outro, às vezes, por teimosia de gostar da mina de minha infância, e também porque meia dobrada dá uma inteira.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Bode Expiatório



Eu disse não. 
Um não que custei parir, gerado na angústia em não ter tempo para tanto sim. 
Ocupada por tanto sim. 
Senti angústia por querer poupar no outro os nãos que digeri no passado. 
Foi um trabalho intenso, demandou tempo em gestar, silenciosamente, meu não. 
O poder da palavra não! 
Poder dizer não não era coisa que eu pudesse dizer. 
Antes. Eu não sabia. 
Eu cria que eu só poderia receber não. 
Não dar não. Não dá!
Não há vida para sempre sim. 
Há de se ter sim para o não. 
O sim verdadeiro não o seria sem o não verdadeiro. 
Sem o não verdadeiro, todo sim seria falso. Gestando um não, silêncio na angustiada gestação:
Mas e a frustração no outro da existência do meu não? 
Oras! 
Eu cresci tanto com os nãos. 
Aprendi a lidar tão bem com as minhas frustrações por conta dos nãos que ouvi! 
Pois não! Eu disse não. 
Por não ter tempo para tanto sim, por eu ser assim. 
Pari um não.
A frustração nascida do meu não, no outro, pariu um bode expiatório homônimo meu. 
Mas não sou eu. 

Dalila De Castro Realino

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Altivez

Tocava uma marcha conhecida
de algum outro passado meu, marcha feliz, de pisar em poça de chuva.
Minha memória genética sabia o passo enquanto eu seguia o compasso segurando a sombrinha rendada
como quem empunha um estandarte de si mesma.

Eu Criança ria de

Eu Adulta Passo Miúdo Que
Não Deixa Molhar a Roupa de Mulher Feita.

Os calçados eram de

Eu Criança Ensopada de Marcha e Poça Disfarçada.

Encontrei uma

Criança Senhora Passos Comedidos

empunhando uma sombrinha estandarte de si mesma atendendo o chamado contente da missa que ia começar. 

Deus achou engraçado e tirou uma foto relâmpago. Esses mantiqueirais não tem jeito, não.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Grande Mãe


Desci com muito cuidado a escada de pedras atapetadas de úmidos musgos.

"Cada passo de uma vez,..." e pensando assim a senti antes de vê-la.

Meu corpo quente foi surpreendido como partícula pela lufada fria de vapor vivo.

Com tamanha energia, a gente tende a procurar de onde vem a sensação de ser pequenino.

A grandiosa presença deixava gotículas multicolores acima de meu olhar.

Meus olhos cuidavam para que meus pés passassem dos musgos para as pedras do rio.

Respirei umidamente as cores da água e só então a vi.

Entendi porque precisamos dar as mãos frente a algo grandioso - união é equilíbrio frente a vertigem.

A água rasa fluindo sobre tantas pedrinhas me diziam que tudo estava bem.

Cada passo naquela fluidez era um carinho recíproco.

Lavou de meus pés passos passados e me conduziu a pedra central do rio. Pedra mirante inverso, porque se observa fora o que dentro mora.

Ela fez dormir com sua paz uma a uma das minhas seguranças, vencendo primeiro as visíveis.

Pensei que se até as minhas seguranças dormiam frente a ela, eu estaria bem. 

Estávamos conversadas quanto a isso e podíamos Ser.

Minhas seguranças dormiram no meu colo...

Abandonei-me aos cuidados da Grande Mãe.

domingo, 15 de março de 2015

Pedra Branca

Ali estava ela, abraçando os joelhos, no centenário portal. 
Vestia o presente,
um vestido de chita, 
bebia a visão da tão antiga grande pedra envolta em brumas, 
como sempre a viu. 
Diziam-na branca, Pedra Branca. 
Nunca a tinha visto branca, 
embora lembrava-se de ter tocado o céu 
quando pisava no branco dela. 
Não sabe-se por qual mágica, 
as brumas se abriram e a luz do Sol tocou a pedra. 
Ela soltou os joelhos e abriu bem os olhos, 
a pedra era branca pela primeira vez 
neste corte da eternidade em que vivia. 
Tal qual o prisma que era tecido ao seu lado 
a luz dividiu-se e entrou pelos olhos dela, 
clareando todo seu interior para que ela pudesse sonhar de olhos abertos, 
sendo luz com a pedra e o sol. 
Sonhou então que as brumas, 
charme que o mistério faz
para revelar a luz, 
abriu-se e a pedra ficou branca por um dia todo. 
Neste dia, muitas flautas soavam, 
muitas cores dançavam, véus de muitas cores caiam
e ventos convidavam a todos a ser, estar, sentir e expressar.
Malabaristas, palhaços, pintores, atabaques, cores e cores 
diziam em harmoniosa uníssona voz: 
Véus, véus das brumas dos olhos do povo humilde, caiam...
Vejam as cores, não as dores...
Parem de andar tristes, preocupados, 
tudo é tão fugaz...
Sonhou rápido como são os sonhos acordados, 
devem ser disfarçados. 
Chamou a tecedora de filtros dos sonhos, a dona do prisma
 e lhe disse ainda assombrada: 
"Vem cá vê, a Pedra tá Branca! 
É a primeira vez que vejo Pedra Branca!"



 (Para Pamela Souza, a tecedora e a César Lemos, pelos sonhos que temos)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

OM NAMAH SHIVAYA

Arco-íris em mim,
que passando por mim,
toca sem me tocar;
Translúcida água que paira colorida no ar,
Se me tocas sem tocar,
toco em ti e somos um...
Um arco-íris para cada um,
Entre os olhos...
Entre olhares...

domingo, 14 de dezembro de 2014

Lucidez (para Dante)

Quantos podem contar uma vida nova em uma mesma vida?
Nas harmônicas vencemos guerras sem perceber.
Toda tempestade passa.
Cenas são embaladas por canções que fazem tudo como é,
um sonho,
fragmento da grande realidade,
imensamente mais bonita,
inalcançável beleza fragmentada.
Parcos fragmentos captados pelas artes e pela ciência...
Milagres a cada momento que nem todos conseguem ver,
cegos de dor.
Nas harmônicas vão-se as dores como nuvens que passam,
chovem e lavam.
Puros depois de tanta chuva,
não tendo mais problemas à serem resolvidos com o sádico espelho,
criamos problemas para entreter nossas mentes avidas por solucionar.
Moinhos de vento, moinhos de vento,...
Suaves aéreas fábricas de alimento,
disfarçadas de monstros marinhos de um planeta ainda plano,
ainda sobre a mesa.
Dante, tenha uma canção para onde voltar e ser essência.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vida

Eu acalmo meu coração,
eu acredito.
Eu posso sentir a benção
que eu preciso chegando,
chegando,
chegando,
a cada respiração.
Sou um balão vivo.
Inspiro, me encho de vida.
Expiro e ainda assim: vida.
Assim seja, assim é.
Gratidão!

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dentro da Luz

Deitei-me.
Soltei-me como pequenino ser na Terra.
Cerrei meus olhos em respeito a imensidão que não posso alcançar.
Uni-me a Terra, somos uma só.
Senti-a me girando-me devagar, vagando com ela.
Olhos fechados pois abertos não podem ver.
Vi o mistério multicolor inalcançável.
O inatingível me disse que pertenço a ele,
mesmo sendo um pálido ponto azul junto com a Terra.
Que o amor a tudo permeia.
Estou dentro da Luz,
a Luz invisível que a tudo transpassa,
o escuro vácuo incluído.
Sorri porque vi que muitos outros pequeninos pontos estavam contemplando o Absurdo.
Agora rio de todo desespero de todos os desesperados.
O desespero não mora dentro da Luz.
É necessário reconhecer a nossa pequenez,
prostrar-se,
entregar-se aos olhos fechados para ver e ouvir
além do pequeno ponto que somos.
Muitos nomes são dados:
Meditar,
rezar,
orar,...
Não adianta nomes,
o que importa é o ato
e o fato
em si.
Serenos somos,
serenos,
serenos
pontos
dentro da Luz.