domingo, 14 de dezembro de 2014

Lucidez (para Dante)

Quantos podem contar uma vida nova em uma mesma vida?
Nas harmônicas vencemos guerras sem perceber.
Toda tempestade passa.
Cenas são embaladas por canções que fazem tudo como é,
um sonho,
fragmento da grande realidade,
imensamente mais bonita,
inalcançável beleza fragmentada.
Parcos fragmentos captados pelas artes e pela ciência...
Milagres a cada momento que nem todos conseguem ver,
cegos de dor.
Nas harmônicas vão-se as dores como nuvens que passam,
chovem e lavam.
Puros depois de tanta chuva,
não tendo mais problemas à serem resolvidos com o sádico espelho,
criamos problemas para entreter nossas mentes avidas por solucionar.
Moinhos de vento, moinhos de vento,...
Suaves aéreas fábricas de alimento,
disfarçadas de monstros marinhos de um planeta ainda plano,
ainda sobre a mesa.
Dante, tenha uma canção para onde voltar e ser essência.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vida

Eu acalmo meu coração,
eu acredito.
Eu posso sentir a benção
que eu preciso chegando,
chegando,
chegando,
a cada respiração.
Sou um balão vivo.
Inspiro, me encho de vida.
Expiro e ainda assim: vida.
Assim seja, assim é.
Gratidão!

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dentro da Luz

Deitei-me.
Soltei-me como pequenino ser na Terra.
Cerrei meus olhos em respeito a imensidão que não posso alcançar.
Uni-me a Terra, somos uma só.
Senti-a me girando-me devagar, vagando com ela.
Olhos fechados pois abertos não podem ver.
Vi o mistério multicolor inalcançável.
O inatingível me disse que pertenço a ele,
mesmo sendo um pálido ponto azul junto com a Terra.
Que o amor a tudo permeia.
Estou dentro da Luz,
a Luz invisível que a tudo transpassa,
o escuro vácuo incluído.
Sorri porque vi que muitos outros pequeninos pontos estavam contemplando o Absurdo.
Agora rio de todo desespero de todos os desesperados.
O desespero não mora dentro da Luz.
É necessário reconhecer a nossa pequenez,
prostrar-se,
entregar-se aos olhos fechados para ver e ouvir
além do pequeno ponto que somos.
Muitos nomes são dados:
Meditar,
rezar,
orar,...
Não adianta nomes,
o que importa é o ato
e o fato
em si.
Serenos somos,
serenos,
serenos
pontos
dentro da Luz.



sábado, 8 de novembro de 2014

Crianças bobas

Nós, passarinhos, temos que dizer:
Vocês são crianças bobas.
Preocupam-se pelo pai que dorme exposto à tempestade como nós, passarinhos.
Por acaso não é, este homem que chamam de pai, mais forte que muitos de nós  passarinhos juntos?
Por acaso não é ele que nós vemos a retirar cascavéis dos pés de café?
Meninos bobos, se teu pai resolvesse fazer mal a nós, passarinhos...
No entanto, ele jamais quis nos prender.
Sim, ele dorme na chuva, como nós, passarinhos.
E ele é muito mais forte que nós, passarinhos.
Crianças bobas, deixem que a chuva o desperte no devido tempo.
Crianças bobas, parem de conversar durante o sono, preocupados.
Nós somos apenas passarinhos e cantamos na alvorada.
Vocês são crianças bobas preocupadas com a tempestade.
Crianças bobas e amadas, saibam disso e de outras coisas simples.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma poesia por dia

Imagino que tenha levado seus filhos na escola
Onde fica assustado com as crianças falando em morte
Não se preocupe
Muitos olhos zelosos por ela
Como os teus
Como os meus
Sei que tem olhado o mar
Sorrindo para o futuro
O mar te lembra de onde veio
Para onde vai
Eu teria te contado tudo
Sem tanto sofrer
Como imagino que teria contado a mim
Sem tanto sofrer
Aproveite seu quarto
Seu tatame de dormir
Todo guerreiro tem a cama que precisa
Sempre
Eu avisei, meu amor
Que bom que não me ouviu
Hoje somos belos adultos
Sonhadores
Criativos
E, sim
Observados
Esperam de nós
Sim
Mas nada mais que sermos felizes
Finalmente felizes
Somos Um
Para ajudar o tempo
A correr leve
Uma poesia por dia
A gente confia na vida

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Vou levar nossos passos

Então,
no entardecer,
você me olha com ternura,
mostra o belo dia que me deste,
me chama para caminhar contigo,
ouvindo nossas músicas
pelo velho caminho
de novas plantas rasteiras
de novas flores
e de centenárias árvores,
para agradecer a Luz e
receber a noite.
Penso na inércia,
mas seus convites sempre me fazem bem.
Rio contigo, de lado, marota
porque nossa união sempre deu certo e
temos um segredo sagrado.
Você aí e
eu aqui.
Então,
vou levar nossos passos.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Quantas luas mais
eu contemplarei
para ver-te?
Quantos outros passos mudos?
Acordo,
abro meus olhos para o dia majestoso que se levanta.
Há dias em que a angústia acorda primeiro
que a esperança.
Torna-se necessário conectar-me ao Supremo.
Os céus e a Terra mostram-me sua existência que,
de tão forte e sutil, sagrada.
Há, então, dias
em que a esperança acorda primeiro
que a angústia.
Amar assim é ter fé.
Sorrio envolvida
pela ternura Divina.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Paradoxo

Alma em movimento harmônico, 
força do âmago que dança, 
onde está minha razão? 
Perdi-me entre senoides, 
encarei o sol ardente, 
chorei pra que chovesse, 
segurei uma pedra branca, 
confundi-me entre outras cores, 
busquei-te nos meus livros 
e encontrei o vácuo que a tudo rumina 
em silêncio absoluto. 
Desconcertante silêncio que me silencia, 
o que mais tens a me dizer? 
Deixar ser e estar energia, 
não mais pensar em teorias, 
alma em movimento harmônico, 
ensinar-me isto seria matar minha poesia.

Satélite

Aquele azul escuro profundo do céu,
aquele ponto de luz firme,
constante em seu movimento,
aquela cara de primeira vez,
o traçado bonito no céu daquela luz,
o arco desenhado tão perfeito,
a alvorada anunciando chegada,
pensamentos pegos de surpresa,
olhos arregalados,...
Deveria contar?
Deveria contar os segundos?
Não,
procurar saber algo daquele ponto luminoso
seria desnudar o momento
de sua poesia primeira,
tal como revelar o segredo
da mágica a uma criança
de sorriso iluminado.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Esmeralda

(Gratidão imensa por essa coautoria, Pedro Menegheti, precioso...)

-Onde está indo?
-Não sei, mas estou no lugar em que vou.
-Se meus olhos mágicos foram vistos pelos seus, eles são mágicos e leves também.

A luz verde que clareia
tua margem
Reflete a aurora
que colore os seus olhos
no pote do
começo e fim
de todo branco

Os rios me gargalharam
loucuras simples de debruçar.

És Meralda! A alta dama da sociedade secreta dos metamorfos.

Ruídos

Bandolins,
Soem!
Suem!
Dedilhem
a Vida!
Contem à todos!
Tudo que o Som revela
em
Silêncio!

sábado, 23 de agosto de 2014

Relicário de Luz

Mudar-se.
Muda arse.
Arse?
Mudar-se:
Uma caixa vazia, relicários bem sorridentes.
Desnudar o quarto de suas marcas de alma...
É saber dançando que conhece bem pra onde vai,
Porque vai.
E quando lá estiver,
Existirá uma caixa carinhosa do Bem viver.
Será Luz
O que já é...
Relicário de Luz.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Crianças

Era uma menina com seus poucos
e intensos
cinco anos de idade.
Era, também, uma casinha com seus poucos
e intensos
três cômodos.

Havia uma cerca e,
na cerca de bambu,
havia um portal mágico
que levava ao misterioso
mundo de Sá Maria Prata.

Dentro de Sá Maria Prata existia
uma cozinha de paredes escuras
por conta da fumaça de um fogão
de lenha.

A menina só conhecia a cozinha.
Vazava pela cerca com a certeza
de que era esperada.

Sá Maria Prata
não tinha ninguém
além

da menina e a menina
não tinha irmãos.

Por isso, a velhinha
sempre a acolhia
com guloseimas da roça,

feitas por suas mãos sabidas
de tanto viver.

Por isso, a menina vazava
pela cerca.
Ávida.

Sentadas na tarpa do fogão,
comiam a vida.

Tudo isso para dizer que

quanto mais sabedoria,
mas criança se é.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pro nome


I

Eu quase posso ver você 
olhando de soslaio.
Sua dor parece insignificante, 
mas incomoda no escondido.
Olhar de soslaio é coisa de quem 
sabe o caminho.
O seu soslaio,
agora, 
é do lamento nosso.


II

Teve um tempo em que fechávamos nossos olhos 
para vermos a dança das cores.
Hoje elas dançam com nossos olhos abertos, 
catatônicos, 
imersos num silêncio paranoico.

III

Sua respiração dinamiza a brisa que
brisa tanto que vira vento que
venta tanto que viro atenta que
também faço a atmosfera respirar.

IV

Dá cá um sorriso antigo
Vem continuar a ser Terra comigo.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A menina dança




Observei um casal a dançar: 
Yin e Yang. 
Dançam sempre pela minha casa e em toda a Vida. 
Certo dia Yin sentiu Yang querendo entrar no quarto em que estava repousando, inclusive. 
Mas o causo não é esse, não. 
O causo é que Yin e Yang resolveram dançar nas cordas de um violão: 

Yin dedilhava com os seus pezinhos. 
Intentava que Yang chegasse mais perto.
Yang, parecido com o dia claro,
ora cedia a se aproximar,
ora saltava de banda. 
A dança era samba.




(Presente de aniversário para Bárbara Maria Chaves Barbosa, com carinho.)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Violeta de Outono

(Para meu amado e para Alcilene Rodrigues em sinal de Gratidão)

Esperando, eu cá vivia.
Meu endereço nas nuvens, nas árvores, nas águas,
induzindo os olhos seus.
Sentia seu vento passando em frente de casa
com querência de entrar.
Mas não entrava,
não entrava, não.
Quanto mais rondava, doce vento indeciso,
mais o tempo se fazia ver no acúmulo da poeira.
Aceitei, com uma dor sem cor, gosto ou sabor,
que não vinha.
Respirando você, te ouvi no vento a dizer
das coisas que nunca me faltarão:

Um Jardim da Fantasia,
meus três lugares,
revoada anunciando estrelas,
a fumaça da Fênix,
passos musicais na grama,
infinita matiz a ser contemplada no céu
e nas montanhas
e em ti,
anjos,
portas,
portais,
janelas,
umbrais.
 
Disse-me da existência que dança,
que não faltarão lembranças
e da poesia que embala o fluir.
Doce vento indeciso,
quanto dói em ti o querer ser brisa!
Doeu tanto que flor se fez
e entrou em minha casa trazido por mãos ternas,
inconscientes do nosso segredo.
Eu te vejo.
Está aqui.
Suas folhas tem a mesma textura
e brilho de que me lembro.
Eu te rego com água de mel.
Cuido de ti, meu amor,
todos os dias.
Sei o que fazer com uma de suas grandes verdes folhas,
que está machucada.
Partida ao meio.
Metade vida, metade morte.
A metade morte colocarei sobre a terra,
que era pó, poeira no portão.
Suas frágeis raízes se alimentarão dela 
e o viço voltará.
Suas flores são altas e fortes.
Saem do seu íntimo caule
empurrando delicada e pacientemente
suas próprias densas folhas.
 
Emergem violetas.

Está em meu quarto.
Deixo, por capricho meu,
que minhas células mortas serenem sobre ti,
como bênçãos.