terça-feira, 1 de novembro de 2011

O resto da vida

Meus olhos cansados olhavam pra ele.
Já não tinha mais jeito, era mesmo aquilo,
sem discussão.
Cotovelo, antes falante,
usava o joelho como apoio.
Todos precisam de um apoio.
Não é assim?
Cotovelo no joelho. Queixo na mão.
Como quem pensa e olha pro nada.
Sentado, segurando o peso dos pensamentos...

E o nada era ele.
Ao menos era o tamanho
Do meu contentamento.
Pensava que era tudo ilusão.
Que felicidade era mito.
Minto.
Que felicidade existia.
Mas pra iludir, mascarar.
Pra não percebermos que às vezes o fim
vinha antes do final.

Ele estava na minha frente.
Meus olhos com um profundo “tanto faz”.
Mas...
Possibilidade de temporal,
com danos atemporais,
me fez cada vez mais preocupada.
Então todo ele se fez importante!
Apertei-o entre meus braços.
Protegi-o do que se formava.
Cogitei futuros reparos,
acaso  muito fosse desfeito.

Então a tempestade se desfez.
Já havia cumprido a que veio.
Era tornar a abrir meus olhos
da parte importante que trazia no peito.
Abracei aquele pouco antes tão frustrado,
Olhei bem dentro daqueles olhos.
Dei um beijo de cada lado.
E disse a ele bem firme que havia enxergado:
“Futuro, sua vez de mostrar a que veio...”

sábado, 8 de outubro de 2011

Epifania

Sabe o que é?
É a primavera que me pede
Mas não a estação em si.
A flor...
A primavera está dentro
Da flor!
Mora na flor!
Flor contém a primavera!
Toda ela
Dentro dela...
E ela pede
Renasça!

sábado, 16 de julho de 2011

Rarefeito

Eu já não preciso inflar os pulmões
No “agora digo”
Digo que não disse
E agora já não importa mais

Sabes que as folhas caem
Quando o tempo pede
Sem que se queira
As palavras que não saem
Tem quê de folha dormindo
Prestes a cair pelo ar
Flutuando na imensidão do “e se...”.

Quando acontece
De por acaso baixar os olhos
Num desses fins de noite
Onde se analisa o viver
E o não vivido
Vê-se com sentimento-não-palavra
O que nunca foi dito
Caído no chão
Embalado pelo som
De puro silêncio e dor
Do que devia ter sido
Caso fosse
No “e se...”

Sentimento folha
Agora na minha mão
Sinto pelo não-você
Ainda mais por mim
Que por não dizer
Fiz um poema assim
Raro efeito

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Desenredo

Há certos fatos, atos, cenas, dramas, nesse enredo
Que podam, cortam, censuram, prendem
Além de manias em auto-controle
Meticulosamente dosadas no escondido lar do que se é
Eu me despeço e peço a permissão de me despir dos laços que criei
Criados por mim. Fantasiados por mim.
Moldados. Traçados. Traços. Linhas...
Que me enrolaram, tolheram.
Adeus a mania de me moldar ao gosto dos versos de alguém.
Não tenho forma, não rimo, decassílabos não me cabem bem.
Proclamo, então, a liberdade das palavras!
Saiam!
Vou zelar pelo que ora proponho
Não mais me leio pelo achar alheio
Quem sabe assim, algum sim
Algum fim
A essa busca meio querência
Em saber o que é isso que agora escreve
Quem vai gostar desse enigma que não se percebe?

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Aval

A ligação
Misteriosa e transcendental
Mágica e miraculosa
Uniu e fez-se sentir
Forte e inquebrantável

Nela toda forma de criar
E proceder
O aval
A benção em seguir
E no "ir" 
O outro se arrasta
Se anula
Ao permitir

Se arrastam indefinidamente
À sorte de escolhas cegas e incertas

Se ligados, mas em rumos opostos...
Não vê?
O elo se faz sentir

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Sintonia

À Camilla Nakanami

Pensei que fosse a noite
que andava estranha...
Na verdade
ainda não posso saber.
Tanto barulho,
tanto silêncio nele,...
A noite tem me dito coisas,
não consigo ouvir com clareza,
não sei quem manda dizer.
Mas tenho uma certa certeza
que isso é coisa sua.
Pensamento chama pensamento,
minha alma irmã.
Seja forte como seu nome,
deixe a vida ser.
Tenho uma certa certeza
que era você.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Híbridos

Foi assim:

Tabatinga na parede
Barro branco – bem querer

A paz usava vestido de chita
E levava flores pra morar no quintal

Tapete carinhoso - grama verde
Fez amizade forte com o frescor do vento
Então o clima era sempre ameno
Sempre ameno!...

A luz gostava de como a paz girava
Girava seu vestido de chita ali pelo quintal

A paz se encantou mais uma vez com a calma da luz
Mais uma vez... A paz e a luz

A essência da luz era dançar aurora e ocaso
A paz foi ali criada – arraigada estava

Essencialmente respeitavam a essência

O amor entre a paz e a luz
Fez a paz ser meia luz
Fez a luz ser meio paz

Por isso quem vê a luz sente a paz
Por isso quem sente a paz vê a luz

E assim vai sempre ser
Foi arte que o amor fez


03h53min – 02 de janeiro de 2011